Todos os anos, a começar em maio e a acabar em setembro, se repetem campanhas de informação e prevenção do cancro de pele, com artigos nos jornais e programas na televisão a alertar para os perigos do sol, os cuidados a ter, os sinais a que dar atenção. E, no entanto, a doença continua a aumentar entre os portugueses. Num fim de semana de altas temperaturas e praias cheias de gente a torrar ao sol, fomos perguntar porquê a Cecília Moura, dermatologista do Instituto Português de Oncologia de Lisboa e dirigente da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo.

Texto de Catarina Pires | Fotografia de Paulo Spranger/Global Imagens e iStock

Quantas vezes, em dias de sol intenso, como os deste fim de semana, quando está a sair da praia, ao meio dia, vê famílias inteiras com crianças e bebés de colo que estão a chegar? Muitas, certamente, apesar de as campanhas de prevenção serem claras quanto às horas do dia em que se deve evitar a exposição solar [ver infografia] e à informação de que não há chapéu-de-sol, toldo ou protetor solar que valha nesse período.

Desde os anos 1980 que em Portugal se fazem campanhas de informação e prevenção relativamente ao cancro de pele. “O IPO de Lisboa foi pioneiro nesta matéria, com informação sobre os cuidados a ter, os sinas de alerta, a regra ABCDE e chegámos a ter semanas inteiras de rastreio”, lembra a dermatologista Cecília Moura, que tem diversas explicações para o facto de, apesar disso, a doença continuar em curva ascendente no nosso país.

Na verdade, de acordo com a especialista, os hábitos de exposição solar modificaram-se pouco. A ideia de que só acontece aos outros é muito prevalente e estará na origem desta dificuldade em mudar hábitos, que acontece, por exemplo, também no campo da alimentação, do tabagismo ou do exercício físico.

Em 2018, foram diagnosticados em Portugal mais de 12 mil novos casos de cancros da pele e cerca de mil eram melanoma, a mais maligna e mortal forma de cancro de pele. Desde que há registos, tem vindo a duplicar a sua incidência a cada 15 anos.

No caso da exposição solar, há a agravante de que em Portugal o sol, sobretudo no sul do país, brilha quase todo o ano, não só no verão, e a ninguém ocorre proteger-se, a não ser na praia, quando ocorre.

“Se estiver a dar um passeio ou a fazer uma caminhada, por exemplo, que está muito em voga, e bem, está a expor-se ao sol e deve fazê-lo tomando as precauções necessárias [ver caixa Cuidados a ter]. Os homens, por exemplo, quando começam a perder cabelo deviam sempre usar chapéu e no entanto sabemos como este caiu em desuso. Por outro lado, o vestuário tem vindo a reduzir, sobretudo no verão, quando o sol é mais forte, com a predominância dos calções, saias e vestidos curtos, das alças, das t-shirts e dos decotes generosos”, comenta a especialista do IPO, explicando que nas horas em que o sol é mais forte, estes são fatores de desproteção.

Mas existem outras explicações. “A crescente incidência de cancro de pele também tem que ver com o envelhecimento da população, que implica maior probabilidade de neoplasias malignas, nomeadamente esta. Uma exposição solar continuada ao longo da vida é um fator de risco, sobretudo em pessoas com profissões que são desenvolvidas aos ar livre, como agricultores, pescadores, polícias, jardineiros, trabalhadores da construção civil, etc.”

Por outro lado, a evolução das técnicas de diagnóstico, tanto clínicas como histológicas, leva a uma maior deteção dos diversos tipo de tumores de pele [ver caixa Quatro principais tipos de cancro de pele], assim como o facto de hoje uma parte significativa da população portuguesa ser imunodeprimida – pessas submetidas a tratamentos oncológicos (rádio ou quimioterapia) ou a transplantes, por exemplo – envolver um maior risco de desenvolver cancro cutâneo.

Verifica-se um aumento progressivo do número de casos de cancro da pele nas últimas décadas e a prevenção e o diagnóstico precoce devem ser uma aposta de todos.

Mas, apesar de tudo, as campanhas não deveriam surtir algum efeito? Cecília Moura pensa que sim, mas que talvez a aposta deve concentrar-se nos mais novos, criando medidas concretas de proteção e uma maior literacia em saúde.

“Não é do dia para a noite que as campanhas fazem efeito, leva gerações. Muitas vezes o cancro de pele advém da exposição solar ao longo da vida ou de escaldões na infância e adolescência, que aumentam muito o risco de vir a ter mais tarde. Daí que seja tão importante concentrar os cuidados básicos nos mais novos”, diz a especialista que aponta os adolescentes com um grupo a que é preciso estar particularmente atento devido à rebeldia natural da idade. “Muitas vezes, por razões várias, dormem até tarde e depois vão para a praia nas horas proibidas. É necessário consciencializar crianças e jovens, tanto na família como na escola, dos perigos da exposição solar”.

E dá como bom exemplo a Austrália, país, quase continente, onde a incidência de melanoma era das mais elevadas do mundo (porque os colonizadores maioritariamente anglosaxónicos de pele, cabelo e olhos muito claros eram muito mais vulneráveis ao sol intenso do clima daquelas paragens).

“Na Austrália, começaram a fazer as campanhas centradas na infância – não só de informação e prevenção como medidas concretas como a criação de sombras, toldos e árvores nos recreios das escolas. Neste momento, pela primeira vez, a incidência de melanoma no país deixou de aumentar”, diz.

É a prova de que prevenir compensa.

Cuidados a ter na exposição solar

Saiba que se expõe aos raios ultra-violeta (UV) não só quando apanha sol na praia, mas também praticando um desporto ao ar livre, fazendo jardinagem ou simplesmente caminhando ao sol.

A exposição solar deve ser cuidadosa, evitando as horas de maior intensidade.

Reduza ao máximo as suas atividades exteriores entre as 12h e as 16h (antes e depois do “meio dia solar”).

Use um chapéu, uma camisa ou t-shirt de cor escura e óculos quando estiver ao sol.

Se estiver muito tempo exposto ao sol, por razões profissionais ou lúdicas, utilize manga comprida que cubra os antebraços.

Exponha-se gradualmente ao sol, pois a pele necessita de tempo para se adaptar.

Uma t-shirt molhada no corpo pode deixar passar os raios ultra-violeta.

30 minutos antes de ir para a praia ou piscina aplique um creme protetor com um factor de proteção igual ou superior a 30. Renove as aplicações de 2 em 2 horas e após o banho, mesmo que o protetor seja à prova de água.

Verifique se o protetor que usa tem um fator de proteção elevado tanto contra os raios UVA como UVB. Tenha cuidado com os protetores muito fluidos, “transparentes” ou “em espuma”; podem dar uma falsa sensação de segurança, sobretudo se não forem utilizadas sucessivamente várias camadas na mesma zona de pele.

Conheça a sua pele, efetue um auto-exame da pele de 2 em 2 meses. Vigie o contorno, a cor e o tamanho dos seus nevos [sinais].

Tenha em atenção o reflexo dos raios solares na neve (85%), na praia (20%), na água e na relva (5%). Estar à sombra de um chapéu-de-sol ou toldo não é suficiente para evitar os escaldões.

Com templo nublado não se esqueça do protetor solar, uma vez que os raios são quase tão perigosos como com sol.

Mantenha os bebés longe do sol e ensine a proteção solar às crianças desde muito cedo. No 1º ano de idade, as crianças não devem ser expostas diretamente ao sol. Uma queimadura solar na infância duplica o risco de mais tarde se desenvolver um cancro de pele.

Evite salas de bronzeamento, ou solários, pois os UV aumentam o risco de cancro cutâneo e aceleram o envelhecimento da pele.

Evite queimaduras solares e escaldões.

As pessoas ruivas, as loiras, com sardas e muitos sinais, devem proteger-se com maior rigor.

Programe as atividades, ao ar livre para a manhã ou fim da tarde.

É necessário utilizar óculos de proteção, particularmente as crianças e pessoas de olhos claros.

Consumir frutas, legumes e beber muita água é importante para a proteção da pele e equilíbrio orgânico.

Sinal que modifica, ferida que não cicatriza, é tempo de ser vista.

Estima-se que cerca de 80% da dose de radiação tolerada pela pele se atinge pelos 18 anos.

Proteja a sua pele, os lábios e os olhos do excesso de sol.

Que sinais procurar?

• Que sofreram alguma alteração de tamanho, cor e/ou forma

• Têm aspeto diferente dos restantes (conhecido como o sinal “patinho feio”)

• São assimétricos ou têm bordos irregulares

• São ásperos ou escamosos (às vezes pode sentir-se as lesões antes que elas sejam visíveis)

• Têm várias cores

• Dão vontade de coçar

• Sangram ou libertam líquido

• Têm aspeto rosado

• Parecem uma ferida, mas não cicatrizam

Quatro principais tipos de cancro de pele

Melanoma É o tipo menos frequente de cancro da pele, mas também o mais perigoso. Pode afetar pessoas de qualquer idade, ao contrário dos outros tipos, que são mais comuns nos idosos.

Apresenta-se como um “sinal” muito escuro, que desenvolveu bordos irregulares ou cores diferentes ao longo do tempo; ou como uma protuberância de crescimento rápido, rosa ou avermelhada.

Pode surgir de um “nevo” atípico que se modificou ou como uma lesão “de novo” sobretudo em pele com muitos “nevos” ou “lentigos” (manchas solares parecidas com sardas) ou em pele com antecedentes de queimaduras solares.

Pode difundir-se rapidamente sob a forma de metástases, pelo que é necessário o tratamento cirúrgico imediato.

Se encontrar dois ou mais destes sinais de alerta, não perca tempo. Consulte o seu médico imediatamente, e se houver dúvida consulte o seu dermatologista.

Carcinoma basocelular Este é tipo mais comum de cancro da pele, mas também o menos perigoso.

Apresenta-se tipicamente como um nódulo elevado, da cor da pele, com bordos brilhantes e aspeto perolado, uma mancha ou ferida que não cicatriza ou uma protuberância ligeiramente dura e rugosa que cresce lentamente ao longo do tempo.

Se deixado sem tratamento, pode ulcerar e invadir os tecidos mais profundos.

Carcinoma espinocelular É o segundo tipo de cancro da pele mais comum.

Ocorre em áreas de pele que tenham tido uma acentuada exposição ao sol, tais como a face, couro cabeludo e dorso das mãos.

Apresenta-se como um nódulo duro que pode crescer rapidamente e tornar-se ulcerado e exsudativo.

Pode difundir-se rapidamente para os gânglios e internamente (metástases), sobretudo em lesões mais avançadas localizadas nos lábios, orelhas, mãos e pés, ou em indivíduos imunodeprimidos.

O tratamento cirúrgico atempado para remover as lesões é essencial.

Queratose actínica Ocorre mais frequentemente em pessoas de meia-idade e idosos, em áreas mais expostas ao sol, como a face, pescoço, orelhas, dorso das mãos e couro cabeludo.

Apresenta-se como manchas vermelho-acastanhadas escamosas e rugosas. Estas lesões são pré-cancerosas; em 10-15% dos casos, podem evoluir para carcinomas espinocelular. Por isso devem ser tratadas, a fim de prevenir a progressão

ABCDE – Sinais de Melanoma

Uma vez que o melanoma é particularmente grave, deve estar familiarizado com os sinais a procurar. O ABCDE do melanoma pode ajudá-lo a detetar o melanoma mais cedo:

Assimetria: divida mentalmente o sinal e verifique se os dois lados são iguais. Em caso negativo, procure um médico.

Bordos irregulares: verifique se o bordo do seu sinal está irregular.

Cor: se a cor do sinal não for uniforme. Pode haver diferentes tonalidades de castanho, preto e por vezes de vermelho, azul e branco.

Diâmetro: verifique se o sinal ou mancha está a crescer de forma progressiva. Os melanomas geralmente possuem um diâmetro equivalente a 6 mm.

Evolução: verifique alterações recentes de aspeto.

Fuente: https://life.dn.pt/com-tantas-campanhas-de-prevencao-porque-continua-a-aumentar-o-cancro-de-pele/